Jorge Sampaio: recorda a entrevista dada aos leitores da VISÃO Júnior

Morreu esta sexta-feira, 10, Jorge Sampaio, ex-Presidente da República, função que ocupou entre 1996 e 2006. Foi ainda muito jovem, quando era estudante, que Sampaio se interessou pela política e, na sua opinião, uma vez que poderás ler nesta entrevista, a política não é só coisa de adultos, faz segmento da vida de todos nós. Até da tua, evidente.

Quando, em 2009, Jorge Sampaio publicou o livro O Meu Livro de Política, talhado a leitores entre os 8 e os 14 anos, a VISÃO Júnior perguntou aos seus leitores: ‘O que gostavas de perguntar a Jorge Sampaio?’ O repto foi feito através do nosso site, e recebemos muitas questões para colocar ao ex-Presidente da República.
Podes lê-la já a seguir.

«Catarina Neto e Leonardo Pires foram os escolhidos para entrevistar Jorge Sampaio. Sentados no jardim do gabinete do ex-Presidente da República, Catarina e Leonardo pareciam dois profissionais, lançando, à vez, perguntas a Jorge Sampaio, algumas das quais enviadas por outros leitores da revista.

No final da entrevista, os dois repórteres estavam contentes e tinham razões para isso: a entrevista correra muito. «O Jorge Sampaio é mesmo muito simpático!», diziam. No dia da morte de Jorge Sampaio, recordamos cá a entrevista, publicada na profundidade , na VISÃO Júnior.

Jorge Sampaio em entrevista na Tapada das Necessidades para a rubrica Reporter Junior da Visão Junior 65 VJ65
17-09-2009 – Foto: Gonçalo Rosa da Silva

Catarina: O que representa, para si, a política?
Jorge Sampaio:
A política é o treino combinado das atividades indispensáveis à gestão da sociedade em que vivemos. Exige arte, conhecimento, sabedoria, honestidade e participação.
Por isso, fico sempre muito contente quando vejo estudantes interessados por política. O porvir é vosso e quanto mais interessados houver, quanto mais curiosidade e preparação tiverem, melhor.

Essa curiosidade começa pelo que mais diretamente vos diz saudação: que atividades há na escola, que atividades as pessoas praticam fora da turma, que museus visitam, comentários à situação política, etc. E tudo isto vai formando o cidadão. A política serve os cidadãos, e sem ela não podemos subsistir.

Catarina: Quando decidiu ser político e porquê?
Isso não se decide assim. Para a minha geração tenho 70 anos, vivi metade da minha vida em ditadura, foi por pequenas aproximações. Os meus pais tiveram influência através dos temas que punham à discussão, à mesa. Aliás, houve a campanha do general Humberto Franzino, em 1958, a seguir o trabalho na Associação Académica da Faculdade de Recta e a greve académica de 1962, o 25 de Abril… Esta pergunta é tão difícil de responder, porque a política é segmento da vida, a minha relação a ela foi em crescendo….


Leonardo: Há outras formas de participar na política, além de ser militante de um partido?

Evidente. Os partidos enfrentam dificuldades, neste momento, porque, a meu ver, são um tanto muito fechado e é preciso gerar mecanismos que tornem atractiva a ingressão num partido. Mas há muitas formas de participação.
Comecem por destinar qualquer tempo a coisas que é preciso fazer, relativas seja ao envolvente, seja ao espeque social, seja à melhoria da escola, acções que eu diria quase voluntárias, que obrigam as pessoas a estarem em contacto umas com as outras. Não são formas políticas elaboradas, mas são uma preparação.

Digo sempre aos jovens: porque não tentam, se os partidos deixarem, ser candidatos a uma freguesia? Noutros países, é mal se começa, para se lucrar experiência. Há, no entanto, uma coisa que também digo sempre, que era uma pressão metódico dos meus pais: a pessoa deve participar cívica e politicamente, mas tem de ter uma profissão. A política tem de ser confiada aos mais capazes, e não aos ignorantes ou àqueles que não sabem fazer zero.

Jorge Sampaio em entrevista na Tapada das Necessidades para a rubrica Reporter Junior da Visão Junior 65 VJ65
17-09-2009 – Foto: Gonçalo Rosa da Silva

Catarina: Discutiu-se, recentemente, o voto aos 16 anos. O senhor é a obséquio ou contra?
Ainda sou do tempo do voto aos 21 anos, mas não me surpreende zero se o voto passar para os dezasseis.
Poderia até ser uma forma de alargar a participação. Originava uma maior responsabilidade, nomeadamente para os partidos, pois obrigava-os a explicarem-se melhor.

Leonardo: Acha que os jovens deviam ter um papel mais relevante na política?
Sim. Deveríamos refazer maneira de conjugar aquilo que eu disse sobre as aprendizagens cívicas com uma maior participação na política. Devemos interessar-nos pela nossa rua, pelo trânsito, o meio de saúde, as artes, a cultura, a economia, etc. Quanto mais cedo melhor! E participar.

Há duas entidades cruciais nisto, que se complementam, e falo da minha experiência pessoal: a família e a escola. A escola tem uma função cada vez mais importante. Sei que, às vezes, se pede muito aos professores, mas os bons professores são decisivos. Lembramo-nos sempre dos maus professores, com quem não aprendemos zero, e dos bons professores, que marcaram a nossa vida.

Catarina: Acha que as crianças deviam ter mais direitos? Evidente que quem tem mais direitos também tem mais obrigações…
Isto não pode ser só um país de direitos. Os jovens não podem ter exclusivamente direitos, sem terem deveres. Temos de ter, também, um sentido das nossas responsabilidades: se os nossos pais trabalham para que tenhamos a melhor ensino verosímil, nós devemos, de alguma maneira, corresponder.
Isso é um responsabilidade universal. E, depois, há um responsabilidade universal cívico: temos de perceber que não estamos sozinhos e que o universo maior que é o país se reflecte no nosso pequeno universo.

Catarina: O que acha que se devia mudar em Portugal, em primeiro lugar?
Há muitas coisas para mudar. Assim de repente, essa é uma pergunta complicada.
Mas atrevo-me a manifestar que a Justiça é uma coisa que tem de ser debatida a fundo.

Catarina: Qual foi a decisão mais difícil de tomar enquanto Presidente da República? [Esta é uma pergunta de Ana Morgado, aluna do 8.º ano, na Guarda.]
Houve vários momentos muito difíceis, mas recordo dois. Vocês talvez não se lembrem: em 2002, quando o portanto primeiro-ministro, eng. Guterres, pediu a exoneração; e em 2004, quando o dr. Durão Barroso, que era primeiro-ministro, decidiu candidatar-se à Percentagem Europeia.

Catarina: De todas as decisões que tomou, enquanto político, o que acha que fez melhor e o que acha que fez pior? [Foi o Daniel Torres, 12 anos, aluno do 7.º ano, Massamá, quem perguntou.]
Não há ninguém que não se engane. É difícil manifestar se foi isto ou se foi aquilo.
O que acho que nos deve sempre nortear é um grande sentido do interesse pátrio. O que será melhor para os portugueses? Foi sempre essa a minha perspetiva.

O importante é que o balanço, no universal, seja positivo. Ter-se a sensação, quando se vai na rua, de que as pessoas nos dizem boa tarde. Eu tenho a sorte de encontrar que, a mim, me dizem boa tarde com um ar simpático!

Leonardo: Gostava de voltar à política? [Também foi o Daniel quem colocou a questão.]
Não sei responder. Mas acho que há um tempo para tudo, e agora estou muito interessado naquilo que faço: sou Enviado Próprio do secretário-geral da ONU para a Luta contra a Tuberculose e Elevado Representante da ONU para a Coligação das Civilizações.

Considero que uma pessoa uma vez que eu, que foi deputado, presidente de câmara, Presidente da República, tem um regime de responsabilidade cívica. E isso faz com que nunca me afaste dos problemas que afectam os portugueses. Julgo que tenho a responsabilidade, até morrer, de, com a minha vocábulo, cá e ali, manifestar aquilo que acho que é importante ser dito.»

Quem foi Jorge Sampaio?

Foi presidente da Associação Académica (o equivalente à associação de estudantes) da Faculdade de Recta da Universidade de Lisboa em 1960, durante a ditadura. Em 1962, liderou um movimento de estudantes universitários contra o regime de Salazar.
Formou-se em Recta e foi jurisperito.
Foi deputado pelo Partido Socialista (PS).
Foi secretário-geral do PS.
Foi presidente da Câmara de Lisboa, entre 1989 e 1995.
Foi eleito duas vezes Presidente da República, função que exerceu durante dez anos, entre 1996 e 2006.
Foi Enviado Próprio do secretário-geral da ONU para a Luta contra a Tuberculose e Elevado Representante da ONU para a Coligação das Civilizações.

‘O Meu Livro de Política’

Em O Meu Livro de Política, Jorge Sampaio explica coisas muito importantes sobre uma vez que funciona o País. Por exemplo, o que é a Constituição e uma vez que está organizada, o que quer manifestar a vocábulo Estado, para que serve um referendo. No livro, dirigido a leitores entre os 8 e os 14 anos, aqueles assuntos são contados uma vez que uma história, em que o ex-Presidente da República lembra um pouco da sua vida, as perguntas que fazia ao seu pai (e as respostas que nascente lhe dava) e as questões que os seus filhos lhe colocavam.

Leste cláusula foi originalmente publicado na VISÃO Júnior nº 65

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